Namoro à moda antiga: histórias de um tempo em que o casamento era decidido pelos pais

23/06/2026

Por Mariano França – Colunista da Revista Formosa

As histórias contadas pelos mais velhos revelam costumes que hoje parecem distantes da realidade das novas gerações. Em tempos passados, encontrar um namorado ou namorada não era uma tarefa simples. 

Em muitas famílias do interior na região dos Gerais do Rio Preto, zona rural de Formosa do Rio Preto, oeste da Bahia, os próprios pais eram responsáveis por escolher com quem os filhos iriam se casar, e não eram raros os casos em que os noivos só se conheciam no dia da cerimônia.

Segundo relatos preservados na memória popular da região, diversos casamentos aconteceram dessa forma. Um dos exemplos lembrados por Mariano França é o de seus avós, Antônia e Apolinário. 

De acordo com histórias contadas por sua mãe, Antônia aceitou o casamento para atender à vontade dos pais, seguindo uma tradição comum na época.

Outro caso marcante foi o de Santo e Maria. O casamento teria sido acertado entre os pais dos dois jovens. Quando soube dos planos, Maria afirmou ao pai que não desejava se casar. 

Para evitar o compromisso, o pai da moça viajou para a região do Ribeirão do Riachão, onde permaneceu por cinco dias em uma caçada. A intenção era não participar das tratativas que oficializariam a união.

A surpresa veio quando retornou da viagem. O pai de Santo havia aguardado durante todo esse período para concretizar o acordo entre as famílias. 

Como já estava combinado, Santo e Maria acabaram se casando e construíram uma grande família, com 14 filhos: Zome, Cipriano, Adão, Tereza, Veja, Eva, Eduarda, Maria Amélia, Antônio de Santo, Jacinta, Geci, Cecília, Isabel e Liberata.

Além dos casamentos arranjados, o namoro também seguia regras bastante rígidas. Muitas vezes, o contato entre os jovens acontecia apenas por olhares discretos ou pequenos gestos. 

Quando visitantes chegavam às casas, era comum que as moças se recolhessem aos quartos. Os rapazes, então, aproveitavam qualquer oportunidade para observar as pretendentes por frestas ou até mesmo pela fechadura das portas.

Uma das histórias mais curiosas lembradas por Mariano França envolve o senhor Alfredo. 

Quando jovem, ele visitou a casa de seu Dandão. Como era costume, as moças da família entraram para o quarto. Movido pela curiosidade, Alfredo tentou observá-las pela fechadura da porta. 

No entanto, uma das jovens percebeu a situação e, utilizando um talo de buriti, acabou atingindo seu olho.

O episódio ficou marcado na memória da comunidade e é lembrado até hoje como uma das muitas histórias que retratam os costumes, as dificuldades e até as situações inusitadas vividas pelos namorados de antigamente. 

Seu Alfredo faleceu há poucos anos na localidade de Arroz de Cima, mas sua história continua sendo contada como parte da tradição oral da região.

Entre casamentos arranjados, olhares discretos e encontros vigiados, as lembranças preservadas pelos mais velhos ajudam a compreender como eram os relacionamentos em uma época em que os costumes familiares tinham um peso muito maior nas decisões amorosas.

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