Formosa do Rio Preto: engenho de cana mantém viva tradição da zona rural

Por Mariano França – Colunista da Revista Formosa
Os antigos engenhos de madeira movidos a bois, que durante décadas fizeram parte da rotina de diversas famílias da zona rural de Formosa do Rio Preto, oeste da Bahia, estão cada vez mais raros. A tradição, que reunia trabalho familiar e produção artesanal de alimentos, corre o risco de desaparecer com o envelhecimento dos produtores e a falta de continuidade entre as novas gerações.
Na localidade de Vargem de Dentro, Brígido Ferreira de Castro, de 66 anos, mantém viva essa prática de produção artesanal. Ele começou ainda criança, ajudando a tocar os bois ao lado do irmão, Joãozinho da Tabocas, no engenho do pai, conhecido como Badú, que produzia rapadura.
Ao recordar aquela época, Brígido demonstra saudade dos tempos em que a moagem da cana-de-açúcar fazia parte da vida cotidiana das comunidades rurais. Segundo ele, muitos dos antigos produtores já morreram, enquanto outros não têm mais condições físicas de continuar o trabalho. Entre os mais jovens, poucos demonstram interesse em dar sequência à atividade.
Uma tradição presente em várias comunidades
Durante muito tempo, os engenhos de madeira estiveram espalhados por diferentes localidades do município. Famílias da Tabocas, Vazante, Paul Jaú, Barreiro Branco, Gavião, São João, Largo, Malhadinha, Arroz de Cima, Frutuoso, Barra do Tapuio, Cacimbinha, Fazenda Aldeia e Brejão mantinham a produção de derivados da cana.
Entre os antigos produtores lembrados estão as famílias de Nocalira, Luizinho do Sindicato Rural, Salviano, Carmé da Taboca, Evilásio, Juvenal, Zé de Lídia, Zacarias, Tiago, Moisés, Dedé, Eliodório, Abelino, Zé de Gizinha, Nilo, Pedro Preto, Domingo Velho, Agamenon e Gregório Bachão, entre outros.
A produção era diversificada. Além da rapadura, os engenhos fabricavam mel de cana, puxa, melado, batido, tijolo e, em algumas propriedades, açúcar e cachaça.
Os produtos eram destinados ao consumo das próprias famílias e também à comercialização na região e no comércio de Formosa do Rio Preto, contribuindo para a alimentação e a economia das comunidades rurais.
Produção artesanal
O processo de fabricação exigia trabalho manual e conhecimento transmitido entre gerações. Depois de moída, a cana liberava a garapa, que era utilizada na fabricação dos diferentes produtos.
Segundo o relato de Brígido, a produção artesanal de açúcar envolvia uma técnica na qual a garapa era colocada em um recipiente de madeira, coberta com tecido de algodão e areia, em um procedimento destinado a retirar a água do caldo.
A moagem também dependia da força dos bois, que movimentavam a estrutura de madeira responsável por esmagar a cana. O funcionamento do engenho exigia a participação de várias pessoas, desde o corte e o transporte da matéria-prima até o preparo dos produtos finais.
Memórias de uma época
O relato de Brígido também remete às lembranças de quem acompanhou de perto essa tradição. O colunista da Revista Formosa, Mariano França, recorda ter presenciado moagens nos engenhos de tio Nilo, na localidade de Frutuoso; de Zé de Gizinha, em Arroz de Cima; e de Agamenon, na Fazenda Aldeia.
São recordações de uma época em que os engenhos faziam parte da identidade das comunidades rurais e o conhecimento sobre o cultivo da cana e a fabricação de seus derivados era transmitido dentro das famílias.
Atualmente, a continuidade dessa prática é um desafio. Embora não haja, neste relato, um levantamento que confirme quantos engenhos de madeira movidos a bois ainda funcionam no município, a experiência de Brígido evidencia o risco de desaparecimento de uma tradição ligada à história rural de Formosa do Rio Preto.
Preservar essas memórias, registrar os relatos dos antigos produtores e valorizar os conhecimentos tradicionais são formas de manter viva parte da história e da cultura do município.
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