Quando ir a Formosa do Rio Preto levava até duas semanas de caminhada: a história dos geraizeiros do Oeste baiano

07/06/2026

Por Mariano França – Colunista da Revista Formosa

Durante décadas, moradores das comunidades do Gerais enfrentaram longas jornadas para chegar a Formosa do Rio Preto, oeste da Bahia.

Muito antes da abertura de estradas e da popularização dos meios de transporte, os chamados geraizeiros percorriam centenas de quilômetros a pé para fazer compras, participar de consultas médicas, resolver questões judiciais e tratar de outros assuntos na sede do município.

Os viajantes carregavam seus pertences em uma espécie de mochila artesanal conhecida como "cachorra". Para quem vivia nas localidades mais distantes, a viagem podia durar até sete dias na ida e mais sete dias na volta.

Entre as comunidades mais afastadas estavam Brejão de Abedon — localidade que desapareceu ao longo do tempo — a mais de 200 quilômetros de Formosa, além de Aldeia do Gerais, quase 200 quilômetros distante. 

Outras regiões, como Gato e Barra do Rio (150 km), Cacimbinha (135 km), Ribeirão (120 km), Beira D'Água e Podoio (115 km), Barra do Tapuio (108 km), Marinheiro (107 km), Vereda do Gado (90 km), Cachoeira (85 km) e Furtuoso (80 km), também mantinham forte ligação com a cidade, apesar das dificuldades de acesso.

Segundo relatos preservados pela memória dos moradores mais antigos, essas viagens já faziam parte da rotina das famílias geraizeiras há várias gerações. 

Um dos exemplos lembrados é o de Cantídio Freitas, morador da localidade de Ribeirão, que realizou duas vezes o percurso a pé até Santa Rita de Cássia para resolver questões judiciais, já que a comarca responsável pela região funcionava naquele município.

As jornadas eram realizadas de diversas formas: a pé, em montarias, conduzindo animais de carga, em carro de bois e até por balsas. As travessias dos rios representavam um dos maiores desafios para os viajantes.

Antes da construção da ponte de madeira em São Marcelo, durante a gestão do ex-prefeito Domingos Bispo, a passagem pelo Rio Preto era feita exclusivamente por canoas e balsas. Muitos moradores da região participaram desse trabalho de travessia, ajudando pessoas, animais e cargas a chegarem ao outro lado.

Outra solução encontrada pelos geraizeiros para vencer córregos e rios era a construção de pequenas pontes improvisadas conhecidas como "pinguelas". Feitas com troncos de árvores, elas permitiam a passagem em locais onde não existiam estruturas permanentes.

Um episódio marcante ocorreu na década de 1980, quando o padre Severino visitou o Gerais para celebrar missas nas comunidades. Para atravessar um rio com seu jipe, moradores construíram uma pinguela dupla utilizando dois troncos de buriti. 

Durante a travessia, o veículo escorregou e, por pouco, não caiu dentro do rio, fato que ficou registrado na memória dos moradores da região.

A história dessas viagens revela as dificuldades enfrentadas pelos geraizeiros e ajuda a compreender como o isolamento geográfico marcou a formação social e econômica do município de Formosa do Rio Preto, fortalecendo laços de resistência, solidariedade e adaptação às condições do sertão baiano.

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