Professores baianos alertam contra a romantização da docência diante do adoecimento em sala de aula

Por Revista Formosa
O adoecimento de professores e as condições de trabalho nas escolas estão entre os principais desafios enfrentados por profissionais da educação na Bahia. Neste 15 de outubro, Dia do Professor, relatos de representantes da categoria chamam a atenção para problemas que vão além das atividades em sala de aula, como sobrecarga, desgaste emocional, falta de estrutura e conflitos com estudantes e familiares.
As dificuldades apresentam características diferentes nas redes pública e privada, mas têm um ponto em comum: os impactos sobre a saúde mental dos educadores.
Na rede pública, a professora Déborah Irineu, diretora de Imprensa da Associação dos Professores Licenciados do Brasil — seção Bahia (APLB), destaca que os desafios de aprendizagem precisam ser analisados considerando a realidade social dos estudantes. Situações como violência, insegurança alimentar, trabalho precoce e ausência de políticas públicas podem interferir na frequência escolar e no desempenho dos alunos.
Para a educadora, não é adequado atribuir exclusivamente à escola e aos professores a responsabilidade de solucionar problemas que também dependem de ações nas áreas de saúde, segurança, assistência social e geração de emprego.
O coordenador-geral da APLB-Sindicato, Rui Oliveira, também aponta dificuldades relacionadas à infraestrutura das unidades de ensino. Entre os problemas mencionados estão salas superlotadas, temperaturas elevadas, falta de suporte pedagógico para atender estudantes com deficiência e vínculos profissionais instáveis.
Desafios também atingem a rede privada
Nas escolas particulares, os relatos incluem conflitos na relação entre professores, estudantes e familiares, além de cobranças que ultrapassam as responsabilidades previstas na jornada de trabalho.
A professora Anna Cristina Pinto Croesy, representante do Sindicato dos Professores no Estado da Bahia (Sinpro-BA), chama a atenção para situações em que educadores enfrentam desrespeito em sala de aula e são tratados como prestadores de serviços submetidos exclusivamente às exigências dos clientes.
Segundo a representante sindical, o trabalho também se estende para além do expediente, com demandas relacionadas a plataformas digitais, mensagens e preparação de atividades durante os períodos de descanso, sem remuneração adicional.
Outro problema apontado é o assédio moral. De acordo com os relatos apresentados pela professora, há denúncias de exposição de profissionais em reuniões, grupos de mensagens e outros ambientes de trabalho. Essas situações podem contribuir para o desgaste emocional e o agravamento de problemas psicológicos.
Burnout, ansiedade e necessidade de mudanças
A preocupação com a saúde mental dos docentes também motivou o apoio do Sinpro-BA à pesquisa Saúde Mental e Condições de Trabalho Docente na Rede Particular de Ensino da Bahia. A iniciativa busca reunir dados científicos para compreender os efeitos das condições de trabalho sobre os profissionais da educação privada.
Entre os problemas que preocupam a categoria estão o esgotamento profissional, conhecido como burnout, as crises de pânico e a depressão.
Vocação não deve justificar precarização
Mesmo diante das dificuldades, os professores entrevistados apontam a transformação proporcionada pela educação como uma das razões para permanecer na profissão. O desenvolvimento dos estudantes, o acesso ao conhecimento e a possibilidade de ampliar oportunidades são citados como fatores que dão sentido ao trabalho.
Os educadores, porém, fazem uma ressalva: o compromisso com o ensino não deve ser usado para justificar condições precárias ou exigir sacrifícios constantes dos profissionais.
A valorização da docência, segundo as reivindicações apresentadas, precisa ir além das homenagens realizadas no Dia do Professor. Entre as medidas defendidas estão melhores condições estruturais, respeito aos direitos trabalhistas, combate ao assédio e atenção à saúde mental.
O debate reforça que a qualidade da educação também depende de quem está à frente das salas de aula. Garantir condições dignas para os professores é parte fundamental do processo de ensino e aprendizagem.
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