O que está por trás do bilionário mercado de abate de jumentos na Bahia

Por Revista Formosa
O mercado de abate de jumentos na Bahia tem despertado preocupação entre pesquisadores devido à redução da população desses animais, à falta de uma cadeia produtiva estruturada e aos possíveis impactos sanitários da atividade. A demanda internacional, especialmente da China, está relacionada tanto ao consumo da carne quanto ao aproveitamento da pele para a fabricação de um produto utilizado na medicina tradicional chinesa.
A discussão envolve questões econômicas, ambientais e de saúde pública. Embora exista interesse comercial pelos derivados dos jumentos, especialistas questionam se a atividade oferece retorno significativo ao Brasil e se há condições adequadas para garantir a rastreabilidade e a segurança sanitária dos animais destinados ao abate.
China impulsiona a procura por derivados
A pele do jumento é utilizada na produção do ejiao, uma gelatina obtida do colágeno e comercializada na China. O produto é associado, na medicina tradicional chinesa, a possíveis benefícios para a saúde e à preservação da juventude, embora essas alegações não devam ser confundidas com eficácia clínica comprovada.
Segundo informações publicadas pelo portal A TARDE, o mercado internacional de colágeno de pele de jumento contribuiu para a pressão sobre as populações desses animais em diferentes países.
Na África, a exploração comercial levou a situações preocupantes em países como Quênia e Togo. Em fevereiro de 2024, a União Africana adotou uma moratória de 15 anos para o abate de jumentos em seus países-membros, como medida de proteção à espécie.
No Brasil, a chegada de empresas interessadas nesse mercado também provocou preocupação entre pesquisadores, principalmente diante da redução dos rebanhos e da dificuldade de estimar com precisão quantos animais ainda existem.
Pesquisadores questionam a viabilidade econômica
Um dos argumentos contrários à expansão da atividade é a dificuldade de criar jumentos em escala suficiente para atender ao mercado internacional.
Em estudo sobre a viabilidade econômica do abate desses animais na Bahia, o professor Roberto Arruda de Souza Lima, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), analisou os custos e as limitações da produção.
Diferentemente da pecuária bovina, a criação de jumentos não conta com uma cadeia produtiva consolidada. O período de gestação é de aproximadamente 12 meses, e o animal pode levar de dois a três anos para alcançar o peso destinado ao abate.
De acordo com os dados apresentados na reportagem de A TARDE, o custo estimado de produção pode chegar a R$ 2 mil por animal, enquanto o valor de mercado de um jumento nordestino costuma ficar abaixo de R$ 180.
Essa diferença levanta dúvidas sobre a sustentabilidade financeira da atividade e sobre a possibilidade de abastecer a indústria por meio de uma criação regular, sem depender da captura ou da compra de animais abandonados.
O pesquisador também questiona o benefício econômico para o país, considerando a participação reduzida desse segmento nas exportações brasileiras e a ausência de resultados expressivos de crescimento econômico nos municípios que abrigaram unidades de abate, conforme os estudos citados.
Risco de extinção preocupa especialistas
A redução da população de jumentos é outro ponto central do debate. Historicamente associados ao transporte de cargas e ao trabalho rural, sobretudo no Nordeste, esses animais perderam parte de sua função econômica com a modernização dos meios de transporte.
A nova demanda comercial, entretanto, passou a representar uma ameaça adicional, segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem original.
O professor José Roberto de Andrade, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), relatou que o interesse de empresas chinesas pelo abate de jumentos começou a chamar a atenção dos especialistas em 2018.
A preocupação está relacionada à possibilidade de a exploração avançar em ritmo superior à capacidade de reprodução e reposição dos animais. Sem uma população devidamente monitorada, torna-se mais difícil estabelecer limites sustentáveis para a atividade.
Questões sanitárias também entram no debate
Além da preservação da espécie, os procedimentos de transporte, identificação e controle sanitário dos jumentos destinados ao abate são motivo de preocupação.
Segundo os especialistas citados por A TARDE, parte dos animais pode ser adquirida de pequenos criadores ou recolhida em estradas, sem histórico adequado de origem e acompanhamento veterinário.
Entre os riscos apontados está o mormo, uma doença infecciosa que afeta equídeos e pode ser transmitida aos seres humanos, com consequências graves. A anemia infecciosa equina também integra as preocupações sanitárias relacionadas a esses animais.
A ausência de rastreabilidade dificulta a identificação da origem dos jumentos e o acompanhamento das condições de saúde antes do abate. Esse cenário exige atenção dos órgãos responsáveis pela defesa agropecuária e pela vigilância sanitária.
Os pesquisadores alertam ainda que problemas de controle podem comprometer não apenas os trabalhadores envolvidos na atividade, mas também a credibilidade do setor agropecuário brasileiro no mercado internacional.
Abate é permitido sob condições específicas
A situação jurídica da atividade também integra a discussão. Conforme a reportagem de A TARDE, uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, de 5 de novembro de 2025, permitiu o abate de jumentos por frigoríficos certificados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF).
A autorização, contudo, não elimina os questionamentos científicos sobre a preservação da espécie, a viabilidade econômica da cadeia produtiva e os controles sanitários necessários.
O debate permanece concentrado em uma questão fundamental: como conciliar o interesse comercial internacional com a proteção dos animais, a segurança sanitária e os possíveis benefícios econômicos para o Brasil?
Para os pesquisadores contrários à expansão descontrolada do setor, a continuidade da atividade sem medidas eficazes de monitoramento pode agravar a redução da população de jumentos e ampliar os riscos associados à exploração comercial.
Fonte de apuração: reportagem de Carla Melo, publicada originalmente pelo portal A TARDE em 11 de setembro de 2026, com atualização em outubro de 2026, além dos estudos e especialistas nela citados.
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