Quirino Ferreira da Rocha: o primeiro ferreiro de Formosa do Rio Preto

03/03/2026
Foto Principal: Quirino e Maria; Foto 01: Quirino; Foto 02: Instrumento; Foto 03: Ventoinha
Foto Principal: Quirino e Maria; Foto 01: Quirino; Foto 02: Instrumento; Foto 03: Ventoinha

Por Mariano França, com colaboração da editoria da Revista Formosa

Em meados da década de 1940, vindo do município de Mansidão, oeste da Bahia, um homem simples e trabalhador ajudaria a moldar, no fogo e no ferro, parte da história de Formosa do Rio Preto. Seu nome: Quirino Ferreira da Rocha, reconhecido como o primeiro ferreiro do município.

Homem de poucas posses, mas de grande habilidade, seu Quirino construiu a própria trajetória com as mãos calejadas e o olhar firme de quem entendia o valor do trabalho.

Casado com Maria Medeiros dos Santos, formou uma família com cinco filhos: Carmelita, João, Rosa, Fracilino (conhecido como Francino) e Maria Milta.

Vida na roça e criação dos filhos

Foto 01: Rosa e Maria; Foto 02: Carmelita e João; Foto 03: Quirino; Foto: instrumento
Foto 01: Rosa e Maria; Foto 02: Carmelita e João; Foto 03: Quirino; Foto: instrumento

Ao longo dos anos, seu Quirino morou na Fazenda Vau, Fazenda Ângico, Vereda do Meio e, posteriormente, na localidade conhecida como Pimenta, onde criou os filhos e consolidou sua história.

A sobrevivência da família vinha do ofício na forja. Em uma oficina simples, composta basicamente por fogo, fole, cepo, marreta e martelo, ele produzia praticamente tudo o que o homem do campo precisava.

Fazia:

  • Ferros marcadores de animais
  • Cabeções, esporas e bridões
  • Argolas para marchas de cavalos
  • Estribos e ferrões
  • Facas e facões
  • Dobradiças e ferrolhos
  • Espingardas e molas para espingardas
  • Mancais, porcas
  • Bulinetes para ralar mandioca

Era no som ritmado das pancadas que ele moldava o ferro em utensílios que sustentavam fazendas e famílias inteiras da região.

Foto 01: Ventoinha; Foto 02: Instrumentos; Foto 03: Marcar animais; Foto 04: Instrumento de boladeira
Foto 01: Ventoinha; Foto 02: Instrumentos; Foto 03: Marcar animais; Foto 04: Instrumento de boladeira

Uma oficina movida à força e engenhosidade

O cepo utilizado por seu Quirino ainda existe. Tratava-se de um pedaço de trilho de linha férrea fixado sobre um toco de madeira com cerca de meio metro de altura — uma bigorna improvisada onde ele moldava as peças na base da marreta.

O fole era movido por uma bolandeira que girava uma espécie de ventoinha, soprando ar para intensificar o fogo. Assim, o ferro amolecia ou derretia, permitindo que ele desse forma às peças com precisão artesanal.

Tudo simples. Tudo funcional. Tudo feito com inteligência prática e criatividade.

A tragédia do incêndio

Anos depois, uma fatalidade marcou profundamente sua vida. Um vizinho colocou fogo na roça, e o vento levou faíscas até a casa de seu Quirino. O incêndio destruiu tudo — inclusive documentos pessoais.

Sem ter para onde ir, passou a morar em uma casa cedida por um vizinho, de favor. Mais uma vez, recomeçou com dignidade, mesmo diante das perdas.

Histórias que o povo não esquece

Seu Quirino também era conhecido pelo gosto por uma "pinguinha". Costumava mandar os filhos mais velhos, João e Carmelita, buscarem a bebida na venda. No caminho, porém, os meninos passaram a beber parte da pinga e completar a garrafa com água, para que o pai não percebesse.

Desconfiado do "efeito fraco" da bebida, seu Quirino foi até a venda reclamar que a pinga estava aguada. O vendedor, garantindo a qualidade do produto, ofereceu-lhe um copo para provar ali mesmo.

Foi o suficiente para descobrir a travessura.

O resultado? João e Carmelita levaram uma surra daquelas — história que ficou marcada na memória da família e arrancou muitas risadas ao longo dos anos.

Legado

Seu Quirino faleceu em janeiro de 1996. Deixou filhos, netos e uma herança maior que bens materiais: deixou o exemplo do trabalho honesto, da perseverança e da contribuição silenciosa para o desenvolvimento de Formosa do Rio Preto.

Hoje, seus filhos seguem vivos e espalhados pelo município:
Rosa e Carmelita moram na localidade de Arroz de Baixo;
Francino e João residem no Projeto;
Carmelita também tem vínculos com o bairro Morada Nova.

A história de Quirino Ferreira da Rocha é a história de um tempo em que o progresso era forjado no braço, na coragem e no calor do fogo.

Um homem simples, que moldou o ferro — e ajudou a moldar também a identidade de uma cidade inteira.

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