Quirino Ferreira da Rocha: o primeiro ferreiro de Formosa do Rio Preto

Por Mariano França, com colaboração da editoria da Revista Formosa
Em meados da década de 1940, vindo do município de Mansidão, oeste da Bahia, um homem simples e trabalhador ajudaria a moldar, no fogo e no ferro, parte da história de Formosa do Rio Preto. Seu nome: Quirino Ferreira da Rocha, reconhecido como o primeiro ferreiro do município.
Homem de poucas posses, mas de grande habilidade, seu Quirino construiu a própria trajetória com as mãos calejadas e o olhar firme de quem entendia o valor do trabalho.
Casado com Maria Medeiros dos Santos, formou uma família com cinco filhos: Carmelita, João, Rosa, Fracilino (conhecido como Francino) e Maria Milta.
Vida na roça e criação dos filhos

Ao longo dos anos, seu Quirino morou na Fazenda Vau, Fazenda Ângico, Vereda do Meio e, posteriormente, na localidade conhecida como Pimenta, onde criou os filhos e consolidou sua história.
A sobrevivência da família vinha do ofício na forja. Em uma oficina simples, composta basicamente por fogo, fole, cepo, marreta e martelo, ele produzia praticamente tudo o que o homem do campo precisava.
Fazia:
- Ferros marcadores de animais
- Cabeções, esporas e bridões
- Argolas para marchas de cavalos
- Estribos e ferrões
- Facas e facões
- Dobradiças e ferrolhos
- Espingardas e molas para espingardas
- Mancais, porcas
- Bulinetes para ralar mandioca
Era no som ritmado das pancadas que ele moldava o ferro em utensílios que sustentavam fazendas e famílias inteiras da região.

Uma oficina movida à força e engenhosidade
O cepo utilizado por seu Quirino ainda existe. Tratava-se de um pedaço de trilho de linha férrea fixado sobre um toco de madeira com cerca de meio metro de altura — uma bigorna improvisada onde ele moldava as peças na base da marreta.
O fole era movido por uma bolandeira que girava uma espécie de ventoinha, soprando ar para intensificar o fogo. Assim, o ferro amolecia ou derretia, permitindo que ele desse forma às peças com precisão artesanal.
Tudo simples. Tudo funcional. Tudo feito com inteligência prática e criatividade.
A tragédia do incêndio
Anos depois, uma fatalidade marcou profundamente sua vida. Um vizinho colocou fogo na roça, e o vento levou faíscas até a casa de seu Quirino. O incêndio destruiu tudo — inclusive documentos pessoais.
Sem ter para onde ir, passou a morar em uma casa cedida por um vizinho, de favor. Mais uma vez, recomeçou com dignidade, mesmo diante das perdas.
Histórias que o povo não esquece
Seu Quirino também era conhecido pelo gosto por uma "pinguinha". Costumava mandar os filhos mais velhos, João e Carmelita, buscarem a bebida na venda. No caminho, porém, os meninos passaram a beber parte da pinga e completar a garrafa com água, para que o pai não percebesse.
Desconfiado do "efeito fraco" da bebida, seu Quirino foi até a venda reclamar que a pinga estava aguada. O vendedor, garantindo a qualidade do produto, ofereceu-lhe um copo para provar ali mesmo.
Foi o suficiente para descobrir a travessura.
O resultado? João e Carmelita levaram uma surra daquelas — história que ficou marcada na memória da família e arrancou muitas risadas ao longo dos anos.

Legado
Seu Quirino faleceu em janeiro de 1996. Deixou filhos, netos e uma herança maior que bens materiais: deixou o exemplo do trabalho honesto, da perseverança e da contribuição silenciosa para o desenvolvimento de Formosa do Rio Preto.
Hoje, seus filhos seguem vivos e espalhados pelo município:
Rosa e Carmelita moram na localidade de Arroz de Baixo;
Francino e João residem no Projeto;
Carmelita também tem vínculos com o bairro Morada Nova.
A história de Quirino Ferreira da Rocha é a história de um tempo em que o progresso era forjado no braço, na coragem e no calor do fogo.
Um homem simples, que moldou o ferro — e ajudou a moldar também a identidade de uma cidade inteira.
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