PCC movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano e infiltra dinheiro do crime em empresas legais

Por Revista Formosa
O envolvimento do Primeiro Comando da Capital (PCC) com o setor empresarial deixou de ser pontual e passou a integrar um modelo recorrente de atuação investigado pelas autoridades nos últimos anos.
Apurações indicam que valores provenientes de atividades criminosas da facção circulam tanto em pequenos negócios quanto em grandes empresas, alcançando áreas estratégicas da economia e, em alguns casos, contratos firmados com o poder público.
Levantamentos conduzidos por promotores e forças policiais mostram que, em parte das situações, empresas são utilizadas apenas como mecanismos de lavagem de dinheiro, com o objetivo de disfarçar a origem ilícita dos recursos.
Investigações mais recentes, porém, apontam um avanço nesse método: integrantes do grupo e seus aliados passaram a investir diretamente em empreendimentos formais, buscando lucros aparentemente legais.
De acordo com o promotor Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, o PCC movimenta hoje pelo menos R$ 10 bilhões por ano.
A estimativa foi apresentada em novembro de 2025, durante audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado.
As apurações realizadas nos últimos três anos permitiram mapear algumas das principais fontes de arrecadação e frentes de investimento da facção. O tráfico de drogas permanece como o principal pilar financeiro.
Ao longo da última década, o PCC se consolidou como uma das maiores organizações do narcotráfico na América do Sul, com atuação que ultrapassa as fronteiras brasileiras.
Investigações apontam a presença de lideranças em países andinos, responsáveis por negociar diretamente com produtores de cocaína, além de rotas internacionais que levam a droga para mercados da Europa e da África.
Há mais de cinco anos, autoridades também identificam a cooperação entre a facção paulista e a máfia italiana 'Ndrangheta.
Esse fortalecimento teria se intensificado a partir de 2016, após a morte do traficante Jorge Rafaat Toumani, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Com isso, o PCC passou a exercer domínio sobre a chamada rota "Caipira", que cruza Mato Grosso do Sul e o interior paulista até a capital.
Apesar da concentração nesse corredor, o grupo também atua, de forma pontual, na rota do Solimões, outra via estratégica para o tráfico de cocaína.
Contravenção como fonte de recursos
Além do narcotráfico, atividades de contravenção figuram como fonte contínua de renda. Investigações do Ministério Público e da Polícia Civil identificaram a participação do grupo em esquemas de apostas ilegais, especialmente por meio de máquinas de pagamento instaladas em estabelecimentos clandestinos.
Esses fatos deram origem à Operação Spare, que mantém ligação com a Operação Carbono Oculto.
Em outra linha de investigação, a Operação Falso Mercúrio revelou indícios de que dinheiro oriundo de caça-níqueis na Grande São Paulo era direcionado para uma loja de veículos de luxo, como forma de lavagem de recursos.
A Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 6 bilhões em bens e contas relacionadas aos investigados.
Golpes virtuais e fraudes financeiras
As fraudes digitais também entraram no foco das autoridades. Desde 2023, inquéritos da Polícia Federal e de polícias civis apontam conexões entre autores de golpes financeiros — aplicados por telefone, aplicativos de mensagens e internet — e integrantes do PCC.
Em dezembro daquele ano, uma operação mirou um escritório no centro da capital paulista suspeito de atuar no esquema, resultando na prisão de 24 pessoas.
Infiltração no transporte público
O setor de transporte coletivo também foi alvo de infiltração da facção. Três homens apontados como lideranças — Silvio Luiz Ferreira, conhecido como Cebola; Cláudio Marcos de Almeida, o Django; e Décio Luís Gouveia, o Português — apareciam como sócios da empresa UPBus, responsável por operar linhas municipais de ônibus em São Paulo.
A companhia foi alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em 2024. Segundo os investigadores, o grupo criou empresas, contratou advogados especializados em concessões públicas e participou regularmente de licitações, exigindo do poder público medidas jurídicas para anular os contratos.
Fraudes em licitações
A atuação em contratos públicos também foi confirmada em decisões judiciais. Em julho de 2025, a Justiça de São Paulo condenou Vagner Borges Dias, conhecido como Latrell Brito, por comandar um esquema de fraudes em licitações ligado à facção.
A sentença aponta o uso de empresas de fachada para simular concorrência e manipular resultados, com contratos superfaturados em diversos municípios paulistas.
Antes disso, operações do Gaeco já haviam identificado suspeitas em contratos de serviços de saúde e coleta de lixo, especialmente no município de Arujá.
Combustíveis e lojas de conveniência
Por fim, a Operação Carbono Oculto revelou uma atuação ainda mais abrangente.
As investigações apontam a existência de uma organização criminosa associada ao PCC presente em praticamente toda a cadeia de combustíveis, envolvendo desde estruturas portuárias e refino até usinas sucroalcooleiras, transporte, distribuição, postos de abastecimento e lojas de conveniência.
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