Formosa do Rio Preto: A tradicional Reza de São Sebastião mantém viva a promessa de Maria de Zé Grande em São Marcelo

23/01/2026
José Augusto "Zé Grande" (In-memoriam) e a viúva Maria de Lurdes
José Augusto "Zé Grande" (In-memoriam) e a viúva Maria de Lurdes

Por Mariano França – Colunista da Revista Formosa

A Comunidade de São Marcelo, na zona rural de Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia, mantém viva uma das mais belas expressões de fé e tradição popular da região: a Reza de São Sebastião. 

Mais do que um ato religioso, o encontro anual carrega uma história de dor, promessa, solidariedade e resistência cultural que atravessa quase cinco décadas.

Tudo começou em 1976, em um período marcado por tristeza e medo. Uma criança da comunidade morreu vítima de meningite. Logo em seguida, meu irmão mais novo, Tadeu França, com apenas um ano de idade, também adoeceu, assim como outras crianças da localidade. 

Diante daquela situação angustiante, minha mãe, Maria de Lurdes Ribeiro de França, a conhecida Maria de Zé Grande, fez uma promessa a São Sebastião.

Ela prometeu que, se a mortandade de crianças cessasse, rezaria todos os anos em devoção ao santo enquanto tivesse vida, e ofereceria almoço a todas as crianças que participassem da reza.

A graça foi alcançada. As crianças se recuperaram, a doença foi contida, e minha mãe iniciou ali uma tradição que permanece viva até hoje.

Com o passar dos anos, a Reza de São Sebastião deixou de ser apenas uma promessa familiar e se transformou em uma tradição comunitária. 

A cada ano, moradores da região passaram a colaborar espontaneamente com doações de alimentos como galinhas caipiras, porcos, leite, puba, tapioca, refrigerantes, outros mantimentos e também com doações em dinheiro, fortalecendo o espírito de união e partilha que marca o evento.

Foi também ao longo dessa caminhada que surgiu o chamado "ramo". Famílias ou grupos de quatro pessoas assumiam a responsabilidade de ajudar nos custos da reza. Esses "rameiros" contribuíam financeiramente, como também passaram a integrar a organização do evento. 

Da iniciativa deles nasceu outra tradição que se tornaria muito aguardada: o Baile de São Sebastião, realizado no dia 20 de janeiro, reunindo moradores de diversas comunidades em um momento de confraternização e alegria.

Com a mudança dos meus pais para a Fazenda Pintada, a estrutura da reza sofreu alterações. O ramo e o baile deixaram de acontecer, mas a reza jamais foi interrompida

Durante três anos seguidos, ela foi realizada na Fazenda Pintada, na casa de minha mãe e na residência do meu irmão Edinaldo França. Posteriormente, a tradição retornou à Comunidade de São Marcelo, sendo realizada novamente na casa de Maria de Zé Grande e também na casa do meu irmão Tadeu França, onde permanece até hoje.

A Reza de São Sebastião não é apenas um ato religioso. Ela representa a memória viva de uma promessa de fé, o testemunho de um tempo difícil superado pela devoção e a força de uma comunidade que aprendeu a caminhar unida.

Para o próximo ano, a reza voltará a acontecer em São Marcelo e eu, Mariano França, tenho o propósito de resgatar também o ramo e o tradicional Baile de São Sebastião, no dia 20 de janeiro. 

A ideia é fortalecer ainda mais essa tradição cultural e religiosa, mantendo viva a promessa de minha mãe e valorizando uma herança que pertence a toda a comunidade.

Mais do que recordar o passado, a Reza de São Sebastião é um compromisso com o futuro — para que as novas gerações conheçam, respeitem e deem continuidade a uma história que nasceu da fé e se transformou em patrimônio cultural de São Marcelo e de toda a região.

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