Facções ampliam atuação e impõem novos “negócios” no Ceará

Por Revista Formosa
As facções criminosas no Ceará têm ampliado suas fontes de renda e expandido atividades ilegais muito além do tráfico de drogas.
Documentos obtidos pela reportagem mostram que grupos como Comando Vermelho (CV), Guardiões do Estado (GDE) e Terceiro Comando Puro (TCP) vêm disputando espaço em setores diversos, impondo controle sobre serviços de internet, apostas, fornecimento de bebidas, vendas ambulantes e até a comercialização de água de coco em áreas turísticas de Fortaleza.
A expansão ocorre à base de violência, ameaças e expulsões de moradores.
Expansão dos "negócios" e controle territorial
Em 2025, diferentes episódios evidenciaram a tentativa de facções de penetrar em atividades cotidianas do comércio cearense.
Um dos casos mais emblemáticos foi registrado na Avenida Beira-Mar, em Fortaleza, onde criminosos do CV criaram um grupo de WhatsApp para obrigar ambulantes a comprar produtos em depósitos controlados pela facção.
A imposição, acompanhada de ameaças de morte, demonstrou como os grupos criminosos vêm replicando modelos de exploração já conhecidos em milícias do Rio de Janeiro: monopólio, coerção e cobrança de taxas.
Conforme especialistas, o foco em múltiplas frentes — como loterias, jogo do bicho, cigarros falsificados, bebidas, combustíveis, golpes virtuais e apostas regulamentadas — é uma estratégia para compensar perdas financeiras decorrentes de apreensões policiais e da instabilidade do tráfico.
"O crime organizado passa a operar como um monopólio: controla preços, impõe regras e cria uma espécie de mercado paralelo", explica o professor Fillipe Azevedo Rodrigues, da UFRN.
Ataques e tentativa de monopólio da internet

Um dos setores mais visados foi o fornecimento de internet. Entre fevereiro e abril de 2025, ataques orquestrados pelo Comando Vermelho destruíram veículos, cabos e equipamentos de provedoras em Fortaleza e cidades da Região Metropolitana.
Em Caridade, 90% dos clientes tiveram o serviço interrompido.
As investigações revelaram que a ofensiva foi ordenada de dentro do Rio de Janeiro, após empresários recusarem pagar uma taxa mensal de R$ 20 por cliente.
Em alguns bairros, criminosos chegaram a se associar a donos de provedores clandestinos para monopolizar o serviço.
A GDE, fragilizada financeiramente, tentou replicar o modelo e até planejou abrir uma provedora com CNPJ administrado por laranjas.
O projeto não avançou. Após a onda de ataques, mais de 70 pessoas foram presas, incluindo mandantes e colaboradores locais.
Crise financeira da GDE e fusão com o TCP
Informações da Polícia Civil apontam que a GDE arrecadava cerca de R$ 500 mil por mês, valor considerado baixo para sustentar suas operações e enfrentar o avanço do Comando Vermelho, que conquistou territórios estratégicos em 2025 — como áreas próximas ao Porto do Mucuripe e à comunidade do Lagamar.
Com dificuldades internas, a GDE cortou gastos e reduziu "salários", mas não conseguiu conter a perda de espaços.
Em setembro, após sucessivas derrotas, o grupo cearense formalizou união com o Terceiro Comando Puro, facção do Rio de Janeiro historicamente rival do CV.
Pouco depois da fusão, integrantes do TCP foram presos após tentar tomar máquinas de apostas da Loteria Estadual em Maracanaú, em mais um movimento para dominar mercados paralelos.
Estrutura e finanças da GDE
Antes de ser absorvida, a GDE possuía uma estrutura hierárquica robusta, com divisão entre cúpula, conselhos, intermediários e frentes responsáveis por bairros.
A renda vinha principalmente de:
- cobrança de "caixinha" mensal;
- venda de drogas aos frentes;
- extorsões e taxas sobre comércios;
- multas internas que chegavam a R$ 1.500;
- controle do jogo do bicho.
A facção mantinha ainda cargos específicos para cobrar dívidas, controlar estoques e aplicar punições — que podiam incluir execuções.
Extorsões e assassinatos permanecem
Apesar da diversificação, crimes tradicionais como extorsão continuam em alta.
No Centro de Fortaleza, comerciantes denunciaram cobranças que chegaram a R$ 30 mil para permitir a abertura de lojas.
Em Itapajé, o comerciante Alexandre Roger Lopes, de 23 anos, foi assassinado após pagar um valor abaixo do exigido pela facção.
A investigação apontou que dezenas de comerciantes estavam sendo chantageados por um líder local do CV.
Facções expulsam moradores e criam "territórios fantasmas"
Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, a Segurança Pública registrou 219 casos de expulsão de famílias de suas casas por grupos criminosos.
Fortaleza concentra a maioria dos registros, seguida por municípios da Região Metropolitana e do interior.
A prática se intensificou em áreas de conflito.
A vila conhecida como Jacarezal, em Pacatuba, tornou-se um exemplo extremo: cerca de 30 famílias abandonaram suas casas após ameaças do CV e do TCP.
Moradores deixaram imóveis com móveis dentro, e o local virou uma área fantasma.
Os relatos mostram uma população dominada pelo medo:
- moradores impedidos de circular após determinados horários;
- pessoas que não conseguem retornar para buscar seus pertences;
- assassinatos de quem se recusa a sair;
- ausência de policiamento constante.
Autoridades afirmam que ações têm sido reforçadas, mas a população alega abandono.
Um cenário em evolução e disputa contínua
A presença de facções no Ceará, intensificada desde 2015 com o surgimento da GDE e a entrada de grupos nacionais, transformou o estado em palco de disputas territoriais prolongadas.
A diversificação dos negócios, aliada à fragilidade financeira de algumas organizações e ao avanço de grupos rivais, vem redesenhando a dinâmica criminal.
Enquanto facções tentam expandir influência sobre comércios legais e ilegais, comunidades inteiras vivem sob ameaça, e episódios de expulsão, extorsão e controle de serviços essenciais mostram que o impacto vai muito além da violência armada — alcança diretamente o cotidiano da população.

Com informações G1 e Revista Formosa
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